quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
pessoal, possessivo ou imaginário
Minhas entranhas te saudarão em idioma próprio e bárbaro, grito surdo e gutural a rasgar teu tímpano, sacudir tua alma e arrepiar tua pele. Hás de encontrar beleza no som estranho e desconhecido - que é a voz primal da fênix renascendo.
Se não ecoar selvagemente meu som, esse novo corpo feito de cinzas se partirá pela força da contenção, pela fúria do urro estilhaçando esta pele de ave que ainda é frágil demais, que mal se formou.
Ouve, então, o meu canto visceral, mesmo que não existas, mesmo que sejas nada além de delírio. Invento tua presença e teus ouvidos agora, invento teus olhos e todo o mundo sob suas pálpebras. Invento o reconhecimento que virá do teu corpo e me refugiarei nele.
Que sejas pequena palavra, que sejas inominado, que sejas pronomes: tu, meu.
fracassada pelo êxito
E quanto mais talento descubro, quanto mais habilidades desenvolvo, mais anseio por uma existência mediana, medíocre, vulgar.
Ordinária.
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
silêncio
sábado, 13 de janeiro de 2007
gozo, lâmina, luz e desamor
No piso, nas paredes; espelhos grandes e imaculadamente limpos. O sol invade e ilumina tudo, como se o inferno fosse o meio-dia no pólo norte. Fluorescentes e incandescentes, as luzes fazem as vezes de sol, para que nunca se encerre o expediente naquele que aparenta ser claro banheiro, mas é meu sítio de gozo e destruição.
É neste mundo que me escondo de ti, onde busco fugazes e intermináveis momentos de solidão e distração. Aqui, não me alcanças e não permito a entrada de nada do que é teu. Quando não suporto mais tua vida subjugada à minha; quando odeio o som do teu respirar; quando tua mera existência se apresenta como um monstro asqueroso obstruindo meu caminho – ah! Ah, eu entro no fulgurante refúgio – e é com calma, com prazer perverso que prolongo os passos que me levam à distração que me é tão necessária para sobreviver nesta prisão que é a vida contigo.
Meu corpo avança, reticente, e alcanço a gaveta onde os guardo – aqueles que me trarão foco, alívio e, sim, dor. Dentre os estiletes milimetricamente arranjados, escolho o recém afiado e a ansiedade toma de sobressalto os membros que antes agiam com vagar. Como viciada, meu coração se descontrola e a respiração se entrecorta, com um safanão me livro da blusa e o frio da lâmina sobre minha pele quente acelera minha pulsação, da mesma forma que antes tu me provocavas, quando ainda eras meu homem e me tomar te trazia mais satisfação que hoje o faz me rejeitar. Ofegante, eu corto, engulo com os olhos a inebriante visão da pele se rasgando e o sangue começa a escorrer, a tudo tocando com seus dedos rubros. Prossigo, minha pele branca eivada pelas incisões encarnadas que o estilete produz. Ao terceiro talho, já sinto o indescritível gozo e é com luxúria que retardo os movimentos e desfruto cada segundo, cada pedaço de pele que o estilete racha. Ah, a dor... É reconfortante a dor que vem dos cortes e me faz esquecer as outras, tão difusas, tão malditas.
O sangue jorra lentamente e eu deixo que trilhe minha pele, a pia e o piso, deixo que pinte a alvura, que deixe avermelhados os brancos; o braço dói a ponto de me fazer esquecer a dor de não mais te amar; desaparecem de mim os sinais que a tua rejeição continuada deixou, as profundas escaras que teu desprezo cavou em minha carne e hoje são cicatrizes horrendas do meu corpo aviltado. Mas, ah, que a dor de agora dilui e apaga tudo -- neste momento, doem os cortes que me infligi, é o latejar do braço que me faz chorar. Ah, que é assim que me irmano com os penitentes e seu apego pelo cilício; imagino que sentem como eu, o conforto em saber o cilício, o conforto ao mirar a gaveta onde alinho meus estiletes.
E, depois, deitar-me no chão com olhar quase esgazeado, quase hipnotizado: o sangue forma crostas no meu braço e o piso branco se embeleza com os laivos ruivos; absorta no meu refúgio, o tempo passa tortuoso, os minutos se prolongam em unidades desconhecidas para o mundo externo. Limpo meticulosamente os vestígios do meu vício, mas deixo o sangue a enfeitar minha pele.
Visto a blusa e saio do banheiro como adúltera – teu olhar desconfiado vasculha meu rosto, em busca infrutífera. Enxergas meu pecado, minha traição e sequer desconfias onde que se consumaram. Pensamentos perturbadores me ameaçam: e se eu ainda o amasse? E se houvesse menos rejeição? Inquieta, te lanço outro dos meus olhares amarelos: e se tomasses violentamente o corpo desta que um dia foi mulher e um dia foi tua? E se colocasses luxúria onde eu coloco lâminas?
E porque estas perguntas me abalam demais e porque a resposta a elas vem sempre desenhadas com o “não” e porque já não te suporto, saio de tua vista e vou a um canto qualquer, onde me acalmo com a visão do sangue seco das feridas que me fiz – tirei de ti o poder de me cortar.
As lesões me consolam e confortam – melhor que as limpe e cuide, precisarei logo que esta pele se refaça; meu vício cresce conforme aumenta em mim o repúdio por ti.
mad world
Worn out places - worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere - going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression - no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tommorow - no tommorow
And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World
Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday - Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen - sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me - no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me - look right through me
(Tears for Fears)
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
um dia de alma lúgubre e céu cinza
Não o matei, mas tive que cuidar de todos os preparativos fúnebres de seu enterro.
Suspeito que tenha nascido já condenado. Dediquei a ele tanta alegria e energia que não tinha, mas arranjava. Foi vão, entretanto, o esforço todo e adivinhei a brevidade da sua existência -- sua morte não foi surpresa. Mesmo adivinhada, a morte dói latejante. Cuidar do seu enterro e pranteá-lo consumiu mais daquela energia que já não tinha para dedicar-lhe, resultando em falência - espero que temporária - do meu gerador energético.
Enterrei este sonho ao lado de tantos outros que tive, na mesma pradaria verde e ensolarada. Não há lápides ou quaisquer marcos no meu cemitério. Olhos atentos talvez percebam o pedaço de terra recém revolvida, onde a grama ainda cresce tímida e que hoje abriga seu mais recente inquilino, meu sonho morto.
Nesta cova, o ar é levemente mais fresco e o sol se lança com suavidade, permitindo que as sombras formem penumbra contida, velando pelo último sopro de esperança que lamenta e anseia por mais alguns segundos do sonho. Segundos, segundos, segundos que adoçariam minha boca, mente e meu corpo por momentos eternos.
Meu cemitério de sonhos é também um campo de flores. Espécies improváveis que brotaram de uma terra que abriga cadáveres de sonhos em putrefação. Nada mais forte e indomável que o poder transformador da Natureza, seus corpos e seres, que fazem vida e sorrisos surgirem de morte e pranto.
Até que o processo de transformação se complete, aquele vento quase gélido trará resquícios de aromas desejados e a memória de sentimentos que se recusam ou se demoram a morrer.
Visto de longe, é apenas um prado radiante e repleto de aromáticas flores coloridas. Não há quem imagine quantos sonhos precisaram ser enterrados, anônima e sileciosamente, sem o alarde dos grandes funerais; não há quem imagine de quantos sonhos mortos foram feitas estas flores, quase fúteis e vãs na sua beleza perecível.
(23/06/2006)
asas
Ser Ruiva é uma revolta (in)voluntária numa terra de morenos. Ergo, insolente e orgulhosa, minha flamejante cabeça de mulher.
Habita um selvagem em mim, a quem dou vazão sempre que minha alma transborda a razão. Conheço tantos que fazem de seu peito uma gaiola. Sua fera luta arduamente e clama por liberdade, cravando as garras nas suas carnes. E eles ocupam, atordoados, seus dias, esperando ansiosos para que venha o cansaço e a fera adormeça.
Andam por aí contidos, evitando o perigoso movimento que pode acordar o indomável e reavivar a batalha, a cada dia mais insana, da busca pela liberdade. O corpo lhes arde como terra em chamas.
E é como terra devastada que ficam quando a fera finalmente desiste e se resigna à prisão. Vagando desolados pelo mundo que só enxergam como cinzas, fingindo não perceber que o ermo deste mundo habita seus próprios peitos. E que a vida é plena de oportunidades para quem não a teme.
Com minha coroa incendiária e minha alma selvagem, sigo para onde for. É a minha revolta voluntária contra quem pouco quer e pouco se permite.
(01/08/2006)
