quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

universos a explorar

Descobertas e desventuras de duas Fênix no fantástico mundo das palavras

As palavras vieram para mudar a minha vida: elas me oferecem novos mundos todos os dias; com elas conquisto e exploro planetas nunca antes imaginados. Elas vêm de mim e para mim -- dão início a situações que modificam o curso do meu cotidiano, sempre tão variado e intenso.
Minha mãe conta que iniciei bem cedo a arte da tarelice e já o fazia com adoração, caprichando na pronúncia e buscando novas palavras. "Barrrrrranco", assim eu falava, adorando o som rascante dos RRs que minha pequena língua produzia. Era tanta vontade que Mamãe teve que ensinar-me logo a ler e, aos 5 anos, já mergulhei no fantástico universo da palavra escrita. Fui precoce à escola e a professora chorou quando mudei de classe, desolada com a partida da pequenina fênix ruiva, que tanto amava a língua e suas letras.

Os livros eram meus paraísos secretos, meus abrigos, minhas viagens. Bebia com fervor cada palavra escrita, admirando a habilidade com que os grandes escritores a manuseavam. A escolha da palavra correta, o adjetivo preciso, a construção inesperada, a surpresa do novo vocábulo!
Quem via a moça ruiva, falante e risonha raramente adivinhava sua sensibilidade, seu gosto, seu gozo ante à delicadeza. E vivia duplamente, lépida e alegre no mundo público. E no secreto do meu quarto, o mundo dos meus livros e das minhas músicas estranhas.

A Internet foi a consagração maravilhosa da vida e renascimento da palavra escrita. Pioneira dos chats, reconhecia de imediato as pessoas atrás da tela do computador, suas naturezas reveladas nas linhas, nas pequenas jocosidades, na informalidade do novo diálogo, veloz e sempre presente. Quantas criaturas maravilhosas eu conheci, quantas neuroses acumuladas, a mais recôndita intimidade revelada entre pontos. Ganhei novos amigos e nova família - e ganho, até hoje - ganho diariamente.

Escrever neste blog traz pequenas transformações - perceber a profundidade de momentos que parecem banais e, depois, traduzi-los em escrita. Pequenas mudanças que reconfiguram toda a forma com que vejo e sinto o mundo e as pessoas, imaginando que depois vão se perpetuar no texto que publico aqui. De repente, estou a pensar no termo mais bonito e mais exato para descrever sentimentos, emoções e sensações. Revivo meus encontros, meus amores, minhas desilusões; resolvo meus conflitos e libero meus desatinos: que este mundo não tenha fronteiras, que tudo seja dito, escrito e sentido. Que a palavra venha revelar o que tentamos, a custo, esconder durante a precária forma que usamos para sobreviver ao sombrio. Que a palavra venha iluminar os grandes ou pequenos acontecimentos que a velocidade da vida moderna atropela.

E é com amor intenso, com paixão, com orgulho incomensurável que eu vejo minha pequena Fênix morena explorar com satisfação o novo e deslumbrante mundo que encontra, a cada livro que lê, a cada bilhete que recebe da Mãe Ruiva, a cada cartinha que escreve para os amigos. É minha querida nascendo e renascendo, constantemente, procurando febril pelo desconhecido e pela poesia que encontra na escolha daquela que já é sua adoração: a palavra.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

jazigo de pedras

O que se escondia a sete palmos de terra pode ter já se decomposto.

Não vejo, mesmo. O que tem a oferecer? Nada vi, ainda. E não pense ou se atreva a dizer que não posso reconhecer o que não seja amor.

Eu vi um homem no escuro de si mesmo; um homem que não arrisca e não ousa - e usa como álibi o falso argumento que já sabe o que virá. Eu vi um homem desinteressado e que luta busca desesperadamente por um tapa, um soco ou uma estocada que o retirem do poço em que se enfiou.

Eu vi as muralhas deste homem e as armas que coloca à volta delas. Eu as senti na minha pele, na minha carne. Eu vi esta criatura presa entre pedras, de tal forma que já nem sei o que é pedra, o que é homem. E eu ouvi seu pedido de socorro, sussurrado, atormentado e entrecortado. E seus apelos e sua necessidade de salvação.

Quando eu pedi por troca, quando eu perguntei o recíproco, ele encolheu-se atrás da decepção. Este homem que tanto se esconde ousa se decepcionar porque não consigo enxergar através das pedras que ele mesmo cravou ao redor do seu corpo. E quando eu insisti, ele, cuja carne está engastada com tantas pedras, veio falar em leveza e suavidade.

Ele que pesa feito chumbo, ele que solta suas flechas sem piedade, veio em falsa e pouco enganadora brandura. Pouco resistiu sua farsa aos meus olhos que sabem demais. Despiu-se sem pudor da veste que lhe enfeiava as pedras e cerrou seu fogo - porque são minhas garras que ele quer. Ele não se importa em usar sua sensibilidade para ser mais letal na crueldade - porque quer meu contra-ataque. Porque quer meus olhos amarelos e flamejantes, minhas palavras ferinas e minha ironia pontiaguda. E, assim, ele acha que encontrará um caminho que o liberte das suas pedras.

Ele mal sabe o que tem a me oferecer - desconfio que nada quer me oferecer. Finge que arrisca e nunca sai da sua pétrea prisão. E eu, que tanto quero, me recuso. Não aceito pedaços ou migalhas, não aceito o pouco, não aceito o mal dito nem o maldito. Eu quero tudo. Ele insiste com suas ofertas, que me soam como penumbra, brisas e névoa. Quais ofertas? Novamente, ele se decepciona com a minha incapacidade de enxergar o que não existe.

E a impressão que me deixa permanece a mesma de ontem e de tantos outros dias: ele quer a minha mão e a minha força; ele provoca até que as tem. Mas, me canso a ponto da exaustão, ele que demanda quase toda minha energia, minha emoção. Nada me oferece. Peço, pergunto e a resposta é: nada.

Sua proposta de leve amizade não se mantém, pois busca em mim o brusco, o golpe, o movimento que o desordena. Para, quem sabe, conseguir se libertar de suas pedras. Talvez, ele descubra que nada há sob elas.

E eu, Ave e Monstro já tão cansada, não farei os movimentos que ele precisa. Hoje, eu escolho fazer movimentos para quem pode me retribuí-los. Hoje, eu quero que o amor venha, sob qualquer forma, mas que venha como amor, que venha recíproco. Que não me seja necessário esvair minha última gota de sangue para conquistar novos amores. Que meus novos amores, de todas as modalidades - amigos e homens - possam me dedicar a delicadeza e o cuidado que eu mereço.

Penso que, talvez, ele nada tenha a me oferecer. Que suas pedras afundaram demais o homem.

domingo, 3 de dezembro de 2006

fênix, frankenstein, amor e samsara

Sou amálgama de Fênix e Frankenstein e cada dia me flagela com mais mortes, o que eu respondo com mais renascimentos. Criativo, o divino Piadista Sádico tem se esmerado em perversidade, desferindo com seu braço pesado golpes variados e letais. Insolente, persistente e orgulhosa, reorganizo meus pedaços, amontôo minhas cinzas, colo meus cacos e costuro meus pequenos mortos - renasço, carregando minha desafiadora coroa ruiva. Que venham outros golpes e que este Deus use de maior empenho, pois a cada vez refaço-me mais depressa, volto mais resistente, menos crente e tão mais perseverante que beiro às raias da petulância. Aceito e agradeço o dom de renascer, maldição e bênção que me vieram desde o nascimento - e fez-se a Re-nata.

Após tantos desencontros, aceito também a solidão que tantos renascimentos me impuseram. Pouco se dá se a Fênix morreu, pois que renasce - e, assim, aqueles que eu amo se esquecem de cuidar de mim, mesmo que eu não precise, ainda que eu não peça - e também quando eu peço. Minhas lágrimas e meus apelos já não causam urgência, encontram ouvidos surdos e olhos cegos. Bocas e mãos prontas a pedir, a demandar - a força da ave que é Frankenstein a todos pode salvar, a todos resgata do poço profundo e escuro em que se recolheram. Que importa se eu clamo, se eu grito, se eu desmorono? É preciso que minhas mãos continuem fortes e meu corpo continue solidamente fincado à vida, pois é em mim que os náufragos vêm se apoiar.

- Fênix! onde está sua mão firme? Onde está sua vontade inquebrável?
- Estou em cinzas, estou morta, deixe-me refazer. Estou aos pedaços, dê-me um pouco do seu amor.

Que amor? É neste momento que a Fênix, cuja força deriva da sua dúbia natureza ave-monstro, é vista somente como o Frankenstein, criatura mal cosida e disforme, colossal em seu desvio, excrescência da sociedade que teima em se debater ante à tortura das suas diversas mortes. Indigno, o monstro chora e pede e a ele é negado o alívio que um pequeno gesto de carinho traria. Que o monstro se reconstrua sozinho, que se vire com seus pedaços e lágrimas! Aqueles a quem eu amo querem somente a Fênix glamourosa e renascente, a ave que recende a mirra, nardo e canela; dourada e flamejante, a sorrir e persistir através de tormentas, pestes e guerras, com a sólida resistência conferida por sua parte monstro.

E que suas lágrimas sejam silenciosas, que seus soluços não perturbem o curso e o precioso cotidiano de seus amores. Que falhe consigo, nos subterrâneos do seu corpo duplo, que esmoreça no escuro! E que não falte jamais a eles sua força - deixe de renascer, alinhave os pedaços mortos, mas dê a eles a força que não tem, a custo da sua alma, se preciso for. Estenda sua mão firme, ou será o Frankenstein, criado a partir de refugos, cuja aparência monstruosa certamente lhe infere tal maldade e comportamento vil que deve ser tratada a ferro e repudiada com desdém e desprezo que só os homens sabem ter para com os monstros.

A solidão não incomoda mais. Viver à marginalidade e apoiar senão em mim mesma fazem parte de todos os dias dos meus 340 anos. Mesmo sendo terreno fértil para as esperanças baratas que brotam e brotam em mim, verdes e ordinárias, a ilusão de companhia já não faz parte do que cultivo. Ao contrário, anseio pelo dia em que, verdadeiramente desacompanhada, minhas mãos e minha força se constituirão em refúgio para as criaturas que do meu ventre vieram; para quando precisarem de água, descanso e repouso entre as batalhas das suas próprias vidas.

A mim, diferença nenhuma faz que os humanos enxerguem-me como Fênix ou Frankenstein. Desde que me deixem prosseguir no meu sagrado ciclo de morte e renascimento, sozinha e ruiva a voar pelos meus sonhos. De amor já estou farta. Prescindo dele agora, abdico já - só me deixem cumprir meus destinos, sem suas presenças exigentes e sufocantes.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

teu sonho me castiga

Vai-te embora, que teu sonho é meu pesadelo. Teu sonho é o não que chicoteia a pele da minha realidade. Vai!

Fazer parte daquilo a que chamas teus sonhos e devaneio nunca me foi exatamente uma novidade. Ouvir-te admitir isto trouxe satisfação, alívio e, coerente com nossa ambigüidade, também desgosto e raiva.

Admites o que há tempos adivinhei. Secretamente satisfeita, deixo aflorar um quê de cinismo ao apontar minha carne voluptuosa: sonhos? Devaneios? Com este corpo aqui, este que freneticamente responde a mínimo gesto teu? Sarcasmo e desprezo, também, porque mereces. Sonhos e devaneios, oras bolas!

Este sonho compõe parte importantíssima da tua vida, dizes. Resignada, inconformada; febril e descrente, eu questiono: é o sonho melhor que a realidade? Não, um gemido, não, arfando, não, estar com você é muito melhor, é incomparável, você sabe – um suspiro. Mas, não quero – e desta vez, és muito mais firme.

O sonho é mais seguro, o sonho é mais seguro, o sonho é mais seguro, é o mantra latejando em minha têmpora. Não falo. Só latejo.

Não queres? Eu lamento. E voltas a dizer, certo, seguro: não. Pois não parece, instigo. Não é o que teu corpo diz. Tua boca diz sem palavras o que tua mente temerosa articula em sons, em léxico.

Deito em ti meu olhar, este que já conheces tão bem. Não se faz necessário que eu diga palavra sequer. Tantas já desperdicei... Aprendeste a ouvir tudo o que calo. Aprendeste a ouvir em meu silêncio e meus olhos.

Queres, sim, queres com fome, com voracidade – é o que meu olhar te diz, os lampejos dourados te lembrando dos minutos ardentes que há instantes tivemos. Eu, que conheço tão bem as variadas formas de desejar e ser desejada, sei que teu querer é tão maior que o mero desejo. Meu olhar amarelo te acaricia e te confronta; largo meu sapato e pouso meu pé indolente na tua perna. Na tua perna, queimando... Queimam também teus olhos, tua face rubra. Mantenho imóvel o pé, sem maior insinuação que minha pele em chamas contra a tua. Não me encorajas, tampouco me rejeitas. Vagarosamente, sinto tua mão quente sobre meu pé.

E sustentas meu olhar. Sequer tentas esconder teu desconforto, tua tormenta, teu desatino. Teu desejo implacável. Acreditei no teu discurso, acuso, suave. Acreditei que era possível, tu que tanto me queres; disseste que era assim a vida! Acreditei. E agora?

E agora, cá estamos, meu pé em tua perna, tua mão em meu pé. Queimando. Incompletos. Estamos onde não queríamos estar, aquém e além dos nossos desejos e quereres. Meu pé vai muito além do “não quero” que afirmaste, tão seguro. Meu pé fica muito atrás do que ansiamos tanto.

Nossas pulsações são rítmicas e violentas e espalham por todas nossas células o calor do desejo maldito. Esta praga que assola meus dias e minha alma, que impede que eu deixe de pensar em ti por um dia sequer. Esta praga que contamina teus sonhos e devaneios.

Se apenas estendesses as mãos, serias capaz de alcançar a realidade e tornar possíveis tuas fantasias. Por que te recusas tanto? Por que te negas tanto?

O que temes? É quase impossível sermos mais infelizes do que agora, sabendo que há outra vida para nós. Ter ultrapassado o limite e ter vislumbrado o novo arrebenta minha vida cotidiana. Esgota quaisquer possibilidades de manter toda esta organização intacta.

E alguém me ajude com os meus cacos, que não sei o que fazer deles. Não me explicas! Ordenas que eu siga, que eu vá, que tenha bom senso. Ordenas que me organize, cerre os olhos e continue, silente, a boca fechada sufocando o grito de angústia que eu quero dar.

Mal esfriou em mim o calor da tua boca, continua pulsando a pele que mordeste; meu corpo todo continua ansiando pelo teu! E segues, duro, impiedoso, tentando distanciar-te o mais possível de mim. Tua distância é curta, eu ainda te vejo, ainda te sinto! E quando quase te esqueço, voltas, tuas mãos famélicas, teus dentes de canibal, teu corpo selvagem.



sexta-feira, 29 de setembro de 2006

lento e tortuoso declínio de uma selvagem

Para um anti-social que me exorta a ser social. Que não é ruivo, mas é marginal.

Se eu sentisse que escolhi esta vida, talvez ela não me fosse tão penosa, tão pesada. Parece que ainda estou tentando me adaptar à uma situação que aconteceu depressa demais, porém sei que não é verdade. Já não é mais verdade, embora tenha sido, há alguns anos, quando você me disse que minha vida parecia um bonde rumando velozmente, enquanto eu tentava, sem sucesso, um lugar dentro dele.


Hoje, muito mais que um mero assento no bonde, sei que me apropriei dele de tal forma que quase podemos dizer que o conduzo. Mas é quase, é quase! Pois, não é este o caminho pelo qual eu queria seguir, muito menos este um bonde que planejava conduzir. Estou a serviço deste bonde, mas ele não me leva a lugar algum que eu tenha desejado. Se é que eu ainda seja capaz de reconhecer o que desejo.


Minha vida anterior não era de gozo e prazeres apenas; era de trabalho árduo, de solidão, de liberdade, de escolha, responsabilidade e também, também!, gozo e prazeres! Hoje eu os tenho? Uma ruiva selvagem, que sabia seguir o que queria, sabia negar o que não queria, arcando com todas as responsabilidades das suas escolhas. Inclusive, a de ser só. Social quando queria, anti-social quando me enojava; acompanhada na folia e invariavelmente só no trabalho e na dureza. Por escolha.


Por escolha e barbárie, podia dar de ombros às convenções sociais cretinas, aos malabarismos fúteis, ao irritante cacarejar no galinheiro social. Veja o que eu sou agora! Uma senhora burguesa! Qualquer selvagem, que conserve um resquício que seja de sua natureza indomável, sente-se aprisionado e impotente dentro da pele de uma senhora burguesa! E quem há de vir me dizer que a gente escolhe a vida que tem? Ou é esse a quem chamamos de Deus que faz as piadas mais tortuosas com aqueles pobres mortais que ousam sonhar um pouco além?


Uma senhora burguesa que nem é burguesa, pois tem que trabalhar arduamente para ajudar a prover o sustento da família. Uma perfeita senhorinha burguesa pagaria com mais facilidade a escola das suas filhas, não teria dívidas nem parcos bens. Cadê o cabeleireiro e o maquiador de plantão? Meus deveres nós conhecemos bem, devo ser a esposa inteligente e companheira do marido, devo ser a cunhada acolhedora, a boa filha, a mãe paciente, devo sorrir agradavelmente para aqueles me reservam a mais solene ignorância, enquanto dedicam patética e reverencial adoração ao senhor meu marido. E, como não convém nem um pouco a uma senhora burguesa, devo também cuidar da empresa do meu marido, ser sua agente de relações públicas, defender seus interesses, orar pela sua saúde, vigiar suas costas e trazer um pouco de bom senso para quem é, essencialmente um gênio público com um certo comprometimento emocional. Ah, para quem já não é pessoa física, mas pública. Um pouquinho autista. Esquecido da sua senhorinha. Adorável distraído.


Meu intestino grita, minhas entranhas se retorcem porque se recusam a se acomodar neste corpo de senhora burguesa, que já até se tornou roliço, para que possa arcar com os deveres da senhorinha e da mula. Isso, mula. M-U-L-A, daquelas de carga mesmo.

Se for para ser mula, que eu pelo menos possa dar meus coices! Que se dane essa gentalha que acha que pode apontar seu dedo acusador e me julgar por ter demorado a retornar um telefonema, quando minha cabeça está pegando fogo e meu corpo caindo do abismo. Todo mundo tem seus problemas? Sim, sim, eles têm! Eu também tenho e quero gritar um “DANE-SE” para todos eles, desde que me deixem em paz. Ninguém vem me oferecer ajuda mesmo. Tampouco estou pedindo nada, apenas que não me venham com mais demandas. E inúteis.


Se for para ser a senhorinha, que eu seja de porcelana e que me tratem como a um bibelô, por favor. Que eu sou frágil, não posso ser exposta ao sol e sei me comportar como uma verdadeira madame em todos os aposentos públicos. E sei me tornar profana na alcova. Daí, sim, talvez eu consiga engolir o asco e curvar-me até com gosto, quem sabe?, às tais convenções e à dança social.


Nós, que já passamos do básico, não vamos cair na tentação de dizer que minha revolta é um traço de adolescência tardia e que eu quero apenas uma vida de gozo e prazeres. Eu quero é minha liberdade de volta. Eu quero é poder dar de ombros, é poder ser selvagem, é poder ser louca quando me der vontade. Porque quem paga minhas contas sou eu, quem se deita comigo sou eu e quem agüenta meus pensamentos extravagantes sou eu. Quem acorda de noite assustada pelos meus demônios sou eu e quem cuida, vela e teme pelas minhas crias sou eu.


Eu sou selvagem e estão matando isso em mim. A civilização vai acabar com a minha espécie. Os ruivos são atávicos, seremos extintos e essa terra de morenos e falsas loiras gosta demais da superficialidade. Nós, os ruivos selvagens, estamos fadados a morrer. Extintos. De tédio. De desgosto.


É isto. Estou em revolta. E minha raça está em declínio.

domingo, 24 de setembro de 2006

entre retalhos e entranhas

Há uma verdade que venho escondendo tão profundamente em mim que mal ouso pensar nela. Ao menos tentei te enganar com meias verdades e pequenas distorções. Não, eu a enterrei no mais escuro de mim, mesmo sabendo o horror que isto me traria. Mesmo sabendo as conseqüências que viriam – e vieram – afligir meu corpo.

Se tivesse conseguido momentos de alívio enquanto a mantive enterrada, talvez tivesse valido a pena.

Uma vez, tive um acidente no laboratório cacos de vidro entraram em minha mão. O ferimento foi pouco profundo, mas dolorido, e não consegui tirar todos os resíduos. Doía ter que mexer no corte para tirar os cacos e, então, deixei algum passar desapercebido. O corte inflamou, minha carne tentando expelir aquele corpo estranho; tive que cavoucar novamente a ferida, agora com dor muito maior, em busca do caco. A inflamação e o inchaço eram tantos que, mais uma vez, a busca resultou inútil. E eu deixei. Dava pouca atenção ao fato do corte demorar tanto a cicatrizar. Dava pouca atenção ao latejar constante da inflamação que abrandava, mas não cessava. Foi se abrandando aos poucos, até que eu me esquecesse do corte. E um dia, a pele expeliu o caco de vidro.

Desta vez, ferida por minha verdade-caco, agüentei por meses o latejar incessante da inflamação, esperando que desaparecesse. Se eu não olhasse, se escondesse e a todo custo suportasse a dor surda, um dia meu próprio corpo se livraria da verdade-caco que eu tentei esconder. A inflamação está aqui, aumentando a cada dia, sem sinal algum que vá se curar por si mesma. Se eu não expuser a verdade-caco, vou continuar inflamada.

Já sei o que vai ser de mim depois que te contar. É como se eu tivesse saído sem roupas pelas ruas. Aquela mesma sensação que temos nos sonhos, quando estamos em um lugar público e, repentinamente, nos damos conta que estamos de pijama, ou nus. Pior que estar apenas nua, estarei eviscerada. O caminhão verdade passou sobre mim, ou a faca verdade me retalhou. Pouco importa a metáfora. Estarei nua, sobre o chão sujo, com as entranhas de fora.

E é tudo surreal, grotesco e subvertido, o mesmo mundo paralelo e incompreensível dos meus sonhos. É difícil avaliar o que me incomodará mais, estar nua, estar no chão sujo, estar com minhas vísceras para fora, tentando acomodá-las de volta em minha barriga ferida. Não há espectadores se espantando com a visão medonha; mesmo assim, estar nua me deixa desconfortável, a sujeira do chão me enoja. Quedo-me atônita ante minhas entranhas expostas: o que fazer com elas?

Tudo em mim está exposto. Minhas entranhas desencontradas constituem risco muito maior ao meu corpo e à minha sanidade do que minha nudez no meio da sujeira. Ainda assim, continuo, atônita, sem saber o que fazer da nudez e da evisceração.

Esta paralisia inevitavelmente me levará a uma fatalidade maior. E continuo inerte.

Também não te revelei ainda a tal verdade, reparaste?

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

aos pares

E nossas mãos.

Eu te perturbo porque preciso. Incomodo-te cônscia da necessidade que me move: perturbar-te é imperativo para que mantenha viva minha essência e não me torne, eu mesma, arremedo de quem sou. Como tu, que carregas como cruz os desejos a que não te permites, a vida que te negas e tudo aquilo que preciso ver para não me transformar no que mais me assusta: tu.

Tudo em nós é duplo, dúbio, antagônico e complementar. Somos extremos que se complementam e se repelem. Eu te amo, mas te odeio e tens em ti o que me encanta e repudia. Tudo em nós vem aos pares, gêmeos opostos, como nossas próprias mãos: a destra e a esquerda, imagens quase espelhares de si mesmas – duas.

Coerente à nossa natureza, perturbar-te vem como dor e prazer. É com prazer de quem se vinga que inflijo os pequenos golpes na organização do teu dia-a-dia. É com melancólica doçura que me redimo das minhas vilezas. É com raiva que aceito teu perdão, mesmo precisando tanto da tua presença dupla, a que me ampara e a que me rejeita.

Tua existência vem à minha vida em dois níveis. Vivemos na superfície de nossos sentimentos e confinamos ao nosso porão todos aqueles sentimentos que não podemos soltar. Escondemos, obscuros, uma coleção de monstros subterrâneos e conversamos fingindo não ouvir seus urros. Que importa que clamem, que bradem? Importa é que no primeiro nível se conserve a calma enganadora da nossa não-relação. A verdadeira e monstruosa relação vai continuar confinada ao calabouço clandestino e escuro do que não se consuma.

Vivo como se tivesse tua mão sobre mim, ora a apoiar, ora a estapear. Duplo, dupla, par, que sina é esta que nos persegue? Tua mão a me guiar, a equilibrar meus passos inseguros. Tua mão que garante a tua presença perene, resistindo às perturbações que não me canso de cometer. Tua mão garante que estás a um grito de distância: “Vem!”, te suplico, “Vem que quase caio” e moves tua força silenciosa a me acudir.

E, também, também, também!, tua mão a me estapear a cara, impiedosa: “Acorda que a vida urge e não tens mais tempo para ilusões”. Implacável, tua mão é o grito que me tira do devaneio e me obriga à ação. “Anda!”, assim me apressas, “anda”, é assim o estalo do tapa, “Olha o corpo contíguo à esta mão que te castiga, olha bem o corpo que tanto queres e que te nego! Isto é o que não queres para ti! Não há tempo para quedar-te inerte. Anda!”.

Vês que esta tua mão talvez seja minha? E já nem sei mais o que é teu, o que é meu, o que acontece, o que sonho. Sei que preciso andar, sei que preciso dar voz ao uivo atormentado que se cala em meu peito. Sei que os sonhos estão lá, a espera do meu movimento.

E “lá” é um lugar a que se chega com dificuldade, mas a que se chega. Não é terra regada com leite e mel. É terra que demanda semente, cultivo constante e depois floresce. É terra fértil sob mãos laboriosas e perseverantes.

Queres juntar às minhas tuas mãos fortes? Há tanto espaço, “lá”, na terra em que nossos sonhos podem florescer; há espaço para nós, para a monstruosidade do nosso desejo, para a largura do nosso amor. Vem, minha voz agora te chama, vem comigo, quero mais do que tuas mãos, traz também teu corpo junto ao meu, que anseio tanto pelo teu calor, tua pele, teus olhos; vem!

Vem que viver é mais do que isto que temos agora.

Vem que viver parecer ser um sonho possível.